Quais as funções do analista?
[...] interpelando do mesmo modo qualquer analista, não importa a que credo tenha sido antes levado, será que ele pode dizer que, no exercício de suas funções (sustentar o discurso do paciente, restabelecer-lhe o efeito de sentido, implicar-se nele por responder, bem como por se calar), algum dia teve a sensação de estar lidando com com algo que se assemelhasse a um instinto?
Texto: A posição do inconsciente, Jacques Lacan, Escritos, página 848.
O foco principal do trecho acima parece ser a afirmação de que, na clínica, nunca se lida com algo da ordem dos instintos, deixando implícita a posição lacaniana de que, enquanto analistas, lidamos sempre com pulsões, que seriam da ordem dos animais falantes para os quais não existe um objeto para a falta. Esse assunto dá pano para as mangas, mas gostaria de chamar atenção para uma outra questão do trecho: seus parênteses. Neles, Lacan expõe as três funções do analista: "sustentar o discurso do paciente, restabelecer-lhe o efeito de sentido, implicar-se nele por responder, bem como por se calar". A frase é bastante clara, mas também muito sintética. Por isso, me proponho a comentar brevemente cada uma dessas funções.
1) sustentar o discurso do paciente: aqui me parece se tratar de manter-se na posição de aparato para a projeção transferencial, o que exige que o(a) psicanalista esteja atravessado por sua castração, no sentido de saber que não corresponde aquilo ou aquele para quem o analisante endereça seu amor (seja em forma de raiva, de paixão ou de amor ao saber) e que não é detentor das respostas para as questões do seu paciente. Mas, sabendo disso, deve também poder sustentar esse lugar do amado sem consumar tal amor. Sustentar esse lugar não é nutrir expectativas de relações pessoais que nunca ocorrerão, e sim utilizar o investimento (de tempo, de dinheiro, de demanda) que tal amor suscita, para provocar movimento desejante no analisante, fazê-lo mover-se de um significante a outro, de uma narrativa adoecedora a uma outra que dispense, dissolva a resposta ou não-resposta que constitui um sintoma. Um poder que o analista só tem na medida em que a transferência (projeção) está em andamento.
2) Restabelecer-lhe o efeito de sentido: é tarefa do analista intervir a partir de uma interpretação das repetições sintomáticas de seu analisante. Essa intervenção, quando de fato funciona, reestabelece o efeito de sentido, ou seja, na posição de escuta de seu próprio discurso e através da intervenção do psicanalista, o analisante pode identificar o significante mestre de seu sintoma e elaborar seu sentido. Por exemplo, um analisante que se queixa de não conseguir ir a festas ou fazer qualquer social com os amigos, mesmo querendo muito. Num determinado ponto lembra que ouviu do pai muitas vezes "quem tem tempo para amigos não tem tempo para a família". Aí identificou-se o significante mestre. Mas qual seu sentido? Por que servir a esse mestre? Ele diz: para ser protegido pela família, para ser amado, para não ser uma decepção, para não estar em dívida com o tempo que a familia a ele dedicou, etc...e então começa o movimento dialético onde a intervenção do analista deve atuar como falta, algo falta ser dito, elaborado, algo como "essa resposta não está completa". Pode-se perguntar que proteção precisa do pai se já vive por conta própria? O amor depende tão somente de dar o que o outro quer? O que exatamente quer dizer "ser uma decepção"? e assim por diante. Convocado pelo analista, o analisante se põe a elaborar uma outra verdade, uma outra resposta para a demanda do Outro que não seja pela via do sintoma.
3) Implicar-se nele por responder, bem como por calar: essa parte é muito interessante. Os lacanianos adquiriram, não sem motivo, o estereótipo de estátuas mudas, intimidadoras, quase ou absolutamente silenciosos. Essa postura, que de fato foi a de muitos analistas lacanianos e chegou a se tornar recomendação de mestres aos seus recém-autorizados pupilos em certas instituições, tem implicações, afinal, o silêncio do analista diante de certos ditos é interpretado pelo paciente e tem efeitos. Mas se o analista se cala diante de tudo, está se acovardando, se eximindo de sua função de editor de uma narrativa que está adoecendo aquele que veio em busca da cura. Portanto, o analista deve estar implicado no que diz tanto quanto no seu silêncio. Afinal, se o psicanalista está trabalhando com uma estrutura neurótica, não pode perder de vista que a característica da neurose é a produção de sentido, e o silêncio também é um significante com associações muito singulares para cada um(a).
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