Como funciona uma análise?
Muitos fazem essa pergunta quando chegam ao consultório. Quando isso acontece, costumo responder algo como: me conta por quê você veio até aqui hoje usando as primeiras palavras que te ocorrerem. Explico o desenvolvimento teórico que sustenta essa resposta, usando como suporte teórico a apropriação lacaniana da obra freudiana e o que esse psicanalista inventou a partir disso.
Para que uma análise aconteça (e muitas sessões não chegam a ser de análise) é preciso, antes de mais nada, que haja uma questão de análise. Uma pergunta que um faz ao estranho, ao sofrimento insistente, e que pode ser tanto de origem conhecida - um luto especialmente difícil de atravessar, um acidente que deixa marcas no cotidiano, etc. - quanto da ordem das repetições, ou seja, situações que causam sofrimento e que retornam ainda que com personagens, lugares e tempos cronológicos diferentes, denunciando a existência de uma operação de estrutura definível, que por algum motivo estranho ao falante insiste, repete-se, por mais que cause problemas. Adianto que a tarefa da análise será conceber a lógica que sustenta tais repetições e nela intervir de forma que se dissolva.
A estranheza desse algo que atravessa alguém ao ponto de fazê-lo procurar o analista é o que Freud chamou de unheimilich, palavra alemã para o estranho-familiar que também podemos associar à ideia de saber não sabido formulada posteriormente por Lacan (por mais que não sejam equivalentes). Uma vez posta a questão, a intervenção do analista incidirá no que se narra a respeito desse estranhamento, partindo da premissa de que há um sujeito dividido no discurso do analisante, dividido entre o estranho (não sei por que isso acontece) e o familiar (isso sempre acontece), o saber e o não sabido, o que ele queria dizer e o que ele de fato disse (enunciação e enunciado). A partir dessa premissa, o analista fará cortes - perguntas, isolamento de palavras específicas, desmembramento de uma palavra em outra, deslocamento de uma palavra para um novo campo de sentido, uma cara de confuso convidando a mais explicações, uma risada que crie um efeito ainda não explorado para aquela história, um barulho, até mesmo um gesto como o notável caso em que Lacan toca o rosto de sua analisante, atribuindo um novo sentido para a palavra Gestapo (polícia nazista da qual sua analisante havia sido vítima) e geste à peau (em português “gesto na pele” de sonoridade semelhante) - promovendo, assim, cortes naquele discurso que, quando chegou ao consultório da analista, estava investido num mesmo significante e reincidindo num mesmo sentido.
Esse corte, quando bem sucedido, convoca o analisante a elaborar outros caminhos discursivos na direção de outros significantes, desinvestindo aqueles em que antes insistia e que reconstituíam a mesma operação. Nesse percurso o analisante pode ou não elaborar retroativamente a que demanda seu sintoma estava referido, mas a dissolução da lógica é o que tornará aquele sintoma obsoleto, curando-o do sofrimento causado pela repetição operacional.
Isso explica a primeira parte da minha resposta: pedir que me conte o motivo que o traz à analista. Mas, e quanto a pedir que o faça com as primeiras palavras que lhe vierem à cabeça? Essa parte baseia-se no uso do método da associação livre, fundado por Freud quando este abdicou da hipnose ao concluir que, para estar realmente curado de seu sintoma, um analisante (para ele "paciente") precisa estar consciente ao elaborar, caso contrário, os sintomas voltam a aparecer ainda que de forma ligeira ou totalmente distinta, o que deixaria o/a analisante dependente da presença do hipnotizador indefinidamente. Em suma, um paliativo e não uma cura. Isso se deve ao fato de que, sob sugestão hipnótica, o sujeito está atendendo à demanda do hipnotizador ("quando eu estalar os dedos você voltará a enxergar") e não separando-se ou superando aquela demanda do Outro a que havia sido impossível responder e que fez emergir o sintoma. De forma que o sintoma não torna-se obsoleto, apenas obstruído pelas instruções recebidas, fazendo com que o mesmo ou outro emerja em seguida, quando a velha demanda voltar a estar em questão.
A associação livre supera a insuficiência do método hipnótico e consiste em falar o mais livremente possível “usando as primeiras palavras que vierem à cabeça”, evitando juízos de valor sobre o que se tem a dizer, buscando deixar em suspenso a censura que tira de campo os temas que estão atuando imaginariamente e abrindo a possibilidade da elaboração pela via do simbólico. A suspensão desses interditos são fundamentais e contribuem para ela medidas como a garantia do sigilo de todo o conteúdo da sessão de análise e a necessidade do analista ser alguém exterior ao círculo social do analisante. Tais medidas garantem as condições necessárias para que não haja resistência que não seja de ordem imaginária (afinal, se meu analista é amigo dos meus pais não é por neurose que deixo de falar deles) e então o analisante possa falar até (e principalmente) daquilo que considera moralmente condenável ou incômodo por ser egodistônico. A narrativa produzida em torno dessa questão será o material no qual o analista intervirá.
Em suma, uma análise funciona a partir da intervenção analítica na narrativa que um analisante produz a partir de uma questão, promovendo a dissolução da lógica discursiva implícita que sustentava a impossibilidade de resposta ao que se supunha ser a demanda do Outro e, com ela, o próprio sintoma.
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