O amor nos tempos lógicos

Te peço que recuses o que te ofereço porque não é isso. 

Jacques Lacan

    Um pressuposto: toda demanda é demanda de amor. E se a regra fundamental de uma análise é que o paciente tem que estar ali, diante do analista, por escolha própria, é porque é necessário que haja uma demanda da parte dele na direção do analista. A princípio, essa demanda instala o psicanalista no lugar do detentor de um saber sobre o sofrimento do paciente a que ele mesmo não tem acesso, lhe escapa. Ou seja, o psicanalista é posicionado no lugar do Outro, daquele que sabe, o tesouro daqueles significantes que, ao sujeito dividido, sempre faltam. A demanda do paciente no primeiro momento é a de que o analista forneça esse saber, para que aquele sintoma que atrapalha sua vida e faz fissuras na imagem egóica que ele tem de si e que organiza sua relação com a lei de maneira gozosa, cesse.

    Portanto, toda análise começa com uma demanda (de amor), mas, o que o analista faz com ela? No cotidiano demandamos dos nossos pequenos outros de variadas maneiras. Demandamos que o filho ligue mais vezes, que um amigo ajude a vender uma casa, que os pais sejam menos duros, que o namorado seja mais atencioso e assim por diante. A essas demandas costumamos ser respondidos de três maneiras: com a oferta do que pedimos, com a recusa, ou com a indiferença. Portanto, é em algum desses lugares que os pacientes nos esperam antes de tornarem-se analisantes. A tarefa do analista, no entanto, consiste em respondê-los - até porque se se escuta o que um paciente vem dizer já se está respondendo a essa demanda - mas sempre de um outro lugar, um lugar surpreendente. Ao invés de ofertar ao paciente aquilo o que ele pede ou de negá-lo integralmente, o que consumaria o amor demandado e o estabeleceria imaginariamente no mesmo nível de todos os pequenos outros habituais, o analista exerce a desafiadora função de frustrar a demanda sem recusá-la.

    Em seu livro Do amor louco e outros amores Ricardo Goldenberg escreve:

O amor dito "de transferência" seria um novo amor. Nem falso, nem irreal, novo. Nem imaturo, nem infantil, novo. Outro modo de amar exige outro modo de responder. Quando nos escolhe para sermos seu analista, o paciente nos faz um dom, uma doação de si frente à qual o mínimo que temos que perguntar é se estamos à altura. Ao menos, se estamos aptos a receber o que o outro oferece como possibilidade. Uma coisa é frustrar (Versagen) o paciente; outra é decepcioná-lo (Versa-gen) em sua entrega amorosa. Esta última é imperdoável, e não será perdoada. (GOLDENBERG, 2013, p.73)

    Para isso, o psicanalista atenta quase sempre a algo que não estava no centro da narrativa, provoca e convoca seu paciente a considerar, elaborar, mudar de lugar, certos axiomas e pressupostos que operavam em sua vida sem que ele se desse conta. Ao destacar um significante, apontar a inconsistência de certas ideias, não deixar cair os lapsos e mancadas cometidos em sessão ou nelas narrados, e sim apostar na possibilidade de estarem querendo dizer algo, o analista viabiliza não só o acesso1 a esse cálculo imaginário, inconsciente e adoecedor, como aposta na possibilidade de modulação dele pela elaboração simbólica.

    Em outras palavras, o analista sustenta uma posição transversal que recusa definição estática. Utiliza a demanda de amor que faz com que o paciente invista no seu tratamento, retornando a cada sessão, para causar um movimento desejante que passa pela cura, mas não tem nela seu fim. Isso porque, para curar um sintoma, é preciso que haja identificação do significante mestre ao qual se está sujeito, elaboração de seu sentido, e, finalmente, invenção de outras maneiras de se posicionar em relação a ele, dissolvendo a equação imaginária que produziu o adoecimento. Mas essa não é a última volta em uma análise. Ao dissolver aquilo que produziu o sintoma também se caminha na direção de tornar os ditos menos consistentes, processo que, ao longo do tratamento, culmina no saber2 de que não há tal coisa como isso que Lacan chamou de Outro, onde está a completude, a forma correta ou exata das coisas, o saber absoluto. Ou seja, quando já não há um lugar nem uma pessoa que atue imaginariamente como detentor desse saber que me falta ou quando já não há a instância demandante que quer algo de mim que eu nunca termino de compreender, quando cessa a pergunta "o que queres de mim?" a nível inconsciente. E quando esse saber se produz, a inexistência do Outro já não é motivo de angústia, mas antes abre espaço para novas formas de se ver com a castração, com a lei, com a impossibilidade, que não passe pela pura identificação com aquilo que não se pode ser e supostamente deveria.

    No texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder Lacan escreve:

Homem de desejo, de um desejo que ele acompanhou a contragosto pelos caminhos onde ele se mira no sentir, no dominar e no saber, mas no qual soube desvendar, somente ele, qual um iniciado nos antigos mistérios, o significante ímpar: esse falo, o qual recebê-lo e dá-lo são igualmente impossíveis para o neurótico, quer ele saiba que o Outro não o tem ou que o tem, pois, em ambos os casos, seu desejo está alhures - em sê-lo -, e porque é preciso que o homem, macho ou fêmea, aceite tê-lo e não tê-lo, a partir da descoberta que não o é. (LACAN, 1998, p. 649)

    Que o analisante possa aceitar que a relação com o falo é sobre tê-lo ou não tê-lo e não sobre sê-lo ou não sê-lo. Em outras palavras, posicionar-se de uma outra maneira em relação à falta na qual não esteja imaginariamente identificado como o falo do Outro, já não suponha o que precisa fazer para ser esse falo e se colocar a serviço do que supõe ser esse desejo, mas antes que essa falta seja a força negativa propulsora de um movimento desejante que vai na direção de ter o falo que ainda não tem, o falo que falta, falo que são os significantes, a simbolização deslizante e sem essência que sutura o sem sentido do Real.

    Essa mudança de posição do analisante ao longo do tratamento, no entanto, implica também na mudança de posição do analista em relação a ele. Se no começo da análise o psicanalista é posto no lugar do Outro que detém o saber sobre o sofrimento do paciente e a quem ele retorna demandando essa resposta, com o tempo, se tudo corre bem, o amor demandante que antes estava endereçado à pessoa do analista é deslocado para o saber que se produz do encontro com ele. É aí que o paciente se torna analisante, e ao mesmo tempo, o analista deixa de ser Outro e se torna objeto a, causa de desejo. Mas, como todo objeto a, o analista também deve cair. E o momento em que ele cai - se não for por uma quebra de transferência causada por erros técnicos ou por alguma característica individual do analista que impõe um limite ligado às questões fantasmáticas do analisante, o que pode ser qualquer coisa desde posicionamento político do analista até suas tatuagens, passando pela decoração do consultório, etc. - coincide com o momento do tratamento em que já não há o Outro e essa análise terminou.

    Diferente de outras abordagens terapêuticas, não faz sentido que o psicanalista lacaniano dê alta a seus analisantes. Justamente pelo fato de que o momento final coincide com a queda do analista e, consequentemente, de seus poderes transferenciais. Ou seja, enquanto a alta de um psicanalista tivesse valor para uma análise, ele ainda não teria caído de sua posição de objeto a ou de Outro, e ainda haveria a atribuição de um saber sobre si mesmo à pessoa do analista, "ele diz que minhaanáliseterminou,logo,terminou", portanto,atuaçãoimagináriadoOutro.Não teria de fato chegado ao fim.

    E o processo de finalização de uma análise é também um processo de luto. Segundo Ricardo Goldenberg, no início de um processo analítico firma-se um acordo tácito:

O acordo tácito com nossos analisandos deveria ser, segundo Zygouris: "Vamos viver um grande amor, mas te prometo que você poderá me deixar um dia. Não se trata de um "Te abandonarei", que faria deste um laço paranóico, mas de um "Não te prendo a mim". (GOLDENBERG, 2013, p.90)

    Ou seja, o desejo do analista deve ser o de que haja desejo, levando isso às últimas consequências, sabendo que "não há objeto de maior preço que outro" (LACAN, 2010, p.482) e portanto, ele também precisará perder seu valor. Na última página do seminário 8, A transferência, Lacan diz:

A propósito de qualquer um, vocês podem fazer a experiência de saber até onde ousarão ir interrogando um ser - ao risco, para vocês mesmos, de desaparecerem. (LACAN, 2010, p.482)

    O analista desaparece. Primeiro, enquanto indivíduo, para que a associação livre possa acontecer. Depois, como analista, significante que, assim como os outros, perde sua consistência. Para Lacan, o amor de transferência não é falso. É uma projeção fantasmática tanto quanto qualquer outro amor. A diferença é que o poder de cura e de produção desejante desse amor reside na sua não-consumação. Mas, por ser amor, também implica em se ver com a perda da imagem de si que o olhar do outro produz quando tudo acaba. Nesse ponto, é fundamental que o analista esteja pronto para levar às últimas consequências o desejo do analista, e seja capaz de honrar o acordo tácito do início: te deixo ir. Pois, se se deixa levar pelo desejo de preservar o lugar de amado e insiste na continuação de um tratamento quando o analisante começa a dar sinais de que o fim se aproxima, pode promover uma intensificação da identificação do analisante com a sua castração - ou seja, com aquilo que ele não sabe, não tem, não consegue, como por exemplo se curar e chegar ao final do tratamento - e, dessa maneira, reinvestir imaginariamente esse lugar do Outro ao invés de ajudar na sua extinção.

    A transferência é a condição básica para uma análise, mas o princípio de seu poder é fazer como Sócrates fez com Alcibíades no Banquete de Platão: indicar um outro sentido para tal oferta de amor que não seja o da correspondência ou da consumação.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GOLDENBERG, Ricardo. Do amor louco e outros amores. São Paulo: Instituto Langage, 2013.

LACAN, Jacques. A transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. _______________ Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


Comentários

Postagens mais visitadas