Breve comentário sobre trecho do "A direção do tratamento e os princípios de seu poder" de Jacques Lacan
Trechos do texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder de Jacques Lacan presente nos Escritos:
“Pois, se o amor é dar o que não se tem, é verdade que o sujeito pode esperar que isso lhe seja dado, uma vez que o psicanalista nada mais tem a lhe dar. Mas nem mesmo esse nada ele lhe dá, e é bom que seja assim: e é por isso que se paga a ele por esse nada, e generosamente, de preferência, para deixar bem claro que, de outro modo, isso não valeria grande coisa.
Mas, se na maioria das vezes a transferência primária mantém-se no estado de sombra, não é isso que impede essa sombra de sonhar e de reproduzir sua demanda, quando não há mais nada a demandar. Essa demanda, por ser vazia, será ainda mais pura.
Observa-se que o analista, no entanto, dá sua presença, mas creio que a princípio ela é apenas a implicação de sua escuta, e que esta é apenas a condição da fala. Aliás, por que exigiria a técnica que ele a fizesse tão discreta, se assim não fosse? É mais tarde que sua presença se faz notar.
Além do mais, o sentimento mais agudo de sua presença está ligado a um momento em que o sujeito só pode se calar, isto é, em que recua até mesmo ante a sombra da demanda.
Assim, o analista é aquele que sustenta a demanda, não, como se costuma dizer, para frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração está retida”.
Ou seja, não se trata de frustrar o sujeito ao responder à sua demanda com esse nada, um “nada” que muitas vezes é o acovardamento do analista diante do sofrimento de seu analisante. Trata-se de sustentar tal demanda, que é de amor, ao não transformá-la em necessidade, ou seja, não transformá-la em algo que pode ser satisfeito. Ao sustentar a demanda de amor de seu analisante o analista se coloca numa diagonal: responde não do lugar onde o analisante o espera, mas sempre de um outro lugar. Como no verso de Caetano Veloso, “onde queres revólver, sou coqueiro”, o analista não responde do lugar em que é esperado (muito menos do lugar oposto ao que é esperado porque este por suposto também é esperado), e sim de um outro lugar, como um coqueiro no lugar de um revólver, algo que não é seu equivalente nem seu oposto, é uma coisa outra. O analista aposta num alargamento das possibilidades de resposta à demanda do Outro que não seja pela via do sintoma (sofrimento) por não poder ser o seu falo, e para isso sustenta a demanda de amor que o mantém elaborando seu enigma para que “reapareçam os significantes em que sua frustração está retida” até que ele se dê conta de que não se trata de sê-lo (o falo do Outro) e sim de tê-lo e não tê-lo.
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