Crise de angústia x Angústia de sinal


Boa tarde, caros interessados e implicados na psicanálise que andam por aqui. Fiz uma enquete nos stories há algumas semanas atrás perguntando se vocês teriam interesse num post sobre as diferenças entre angústia de sinal e a crise de angústia ao que 100% dos que participaram responderam afirmativamente. Então vamos lá, até porque esse é um tema importante para a prática clínica, visto que cada tipo de angústia implica manejos e intervenções em direções diferentes. 

No caso da angústia de sinal, poderíamos fazer uma analogia com a expressão “o gato subiu no telhado”. Trata-se do afeto que toma alguém ao sinal de que a castração vem aí, ou seja, ao sinal de uma possível perda do objeto amado (aqui pensando o amor enquanto vontade de fazer um). O afeto pelo qual somos tomados no ínterim entre o sinal de que estamos prestes a perder o objeto amado e a concretização desse fato ou a dissolução de tal perspectiva é a angústia de sinal ou a angústia de castração, visto que a castração é aquilo que interdita o sujeito daquilo que quer mas não pode ter. 

Em tempos pandêmicos como o nosso, podemos usar como exemplo para a angústia de sinal o afeto pelo qual muitos familiares, amigos, maridos e esposas vem sendo tomados em relação às pessoas amadas que se encontram entubadas e à espera de um desfecho que pode ser a morte ou a cura. Quando a primeira opção se concretiza, o que era angústia torna-se luto, e se ocorre a segunda opção, em consequência da dissolução do sinal de castração, dissolve-se também a angústia que ele provocou. Mas nesse meio tempo o desejo fica em suspenso, visto que há sinal de que  há algo prestes a barrar o movimento na direção do objeto amado que ali estava instalado. Em suspenso como nos filmes de suspense em que deliberadamente instala-se no espectador a sensação de que aqueles personagens com quem nos identificamos estão prestes a perder, seja a vida, uma pessoa amada ou o que for. Esse tipo de angústia tem um caráter mais crônico do que agudo e dependendo do caso, pode se instalar como uma operação imaginária que se estende por ainda mais tempo, meses, anos.

Na lição 3 do capítulo XXV do seminário 8 Lacan diz:


Uma vez feito este pequeno circuito, vocês podem entender como a função de sinal da angústia adverte sobre algo, e algo de muito importante na clínica e na prática analíticas. A angústia à qual os seus sujeitos estão abertos não é em absoluto, ou não é unicamente, como se acredita e como vocês procuram sempre, se posso dizer, interna ao sujeito. O próprio do neurótico é ser nesse sentido, segundo a expressão do sr. André Breton, um vaso comunicante. A angústia com que o neurótico de vocês lida, a angústia como energia, é uma angústia que ele tem o grande hábito de ir buscar aos montes, a torto e a direito, num ou noutro dos grandes A com os quais se defronta. Ela é tão válida e utilizável para ele quanto aquela de sua própria invenção. Se não levarem isso em conta na economia de uma análise vão se enganar enormemente. Em muitos casos, vão quebrar a cabeça para saber de onde vem, em dada ocasião, esse pequeno ressurgimento de angústia no momento em que menos esperavam. Não é forçosamente a dele, aquela sobre a qual vocês já estavam advertidos pela prática de meses anteriores de análise. Existe também a dos vizinhos, que conta, e depois a de vocês. (LACAN, 2010)


E pensando essa diferença marcada por Lacan entre essa angústia de fonte externa ao sujeito e uma que é interna a ele, passamos então à crise de angústia. Essa é a angústia em que a fantasia até então organizada pelo sujeito de maneira associativa e, portanto, familiar, falha. 

Vamos do começo: o fato de a cadeia significante do neurótico funcionar de maneira associativa implica numa constante familiarização de todo elemento que por ele passa, uma apreensão a partir de experiências anteriores que afastam o que há de estranho no novo e transforma em algo com o que já se sabe lidar, para onde costuma ir, que problemas pode causar (ainda que isso não se verifique verdadeiro posteriormente).Essa fantasia é o aparato que nos protege do Real, ou seja, daquilo que nos é impossível inscrever, do ulteriormente estranho e, justamente, angustiante. Portanto a crise de angústia consiste de uma desfragmentação de algo que estava organizado, como uma explosão dentro de uma grande máquina que quebra uma série de engrenagens e a impede de continuar seu movimento. 

Essa desfragmentação causa a sensação inefável de estranhamento total. Diferente da angústia de castração, é um sofrimento agudo e que não se estende por muito tempo cronológico - afinal, para quem atravessa uma crise de angústia cinco ou dez minutos parece muito mais do que para quem está de fora -, visto que se trata de uma crise e de um afeto quase insuportável, há uma mobilização subjetiva imediata de reorganização que em análise pode e costuma propiciar bastante produção simbólica. A crise de angústia emerge onde não houve associação, é daí que vem a máxima lacaniana “a angústia é o afeto que não engana”, afinal, diferente do significante que desliza, modula e se associa a outros para torná-los familiar e nesse percurso provoca enganos, a angústia é onde é impossível associar, é e ponto, sem espaço para modulações. Essa é também a angústia sem objeto, visto que não decorre de uma relação com o objeto amado como no caso da angústia de castração, e sim da ausência de aparato simbólico e imaginário no encontro com o Real.


Referência:

LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência, 1960-1961. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

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