Comentário sobre Edipo Gay de Jorge Reitter

Boa tarde a todas e todos os passantes. Hoje queria lhes falar um pouco sobre um livro que li nos últimos tempos por indicação de um vídeo do Juan Manuel e que  me parece interessantíssimo para discutirmos as implicações dos analistas nas questões sociais que tocam às minorias. O livro se chama Edipo Gay do argentino Jorge Reitter e para nós brasileiros está disponível para venda online no formato e-book (infelizmente ainda sem tradução para o português).

Colocando de maneira bastante sucinta, nesse livro Reitter se propõe a questionar dois posicionamentos de psicanalistas a respeito da homossexualidade: o primeiro é aquele em que se posiciona a homossexualidade como uma perversão e que por vezes culmina na bizarra proposição de curá-la e, o segundo, é aquele em que se coloca que a psicanálise trabalha com os enodamentos singulares de cada sujeito e, por isso, tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade não são um tema com o qual um analista tem que estar implicado.

Em relação ao primeiro posicionamento, o autor passa rapidamente, partindo da premissa de que já existe uma significativa produção a respeito do descabimento de se encarar a homossexualidade como algo passível de cura, afinal, até mesmo  Freud já se colocava sobre o assunto, apontanto o descabimento da tentativa de cura da homossexualidade em uma carta que escreveu à mãe de um homossexual que o procurou em busca de cura para seu filho.

Já em relação ao segundo, Reitter se utiliza de Foucault para pensar os efeitos do silêncio enquanto fortalecimento da hegemônia, e propõe que há dois temas com os quais todo/toda homossexual tem que se ver nas sociedades patriarcais-heteronormativas em que vivemos por serem homossexuais, a saber, a injúria (violências, desrespeito, perseguições) e a saída do armário. Segundo ele, seja lá qual for o posicionamento de cada um a respeito dessas duas situações, elas estão postas para todos. 

Ao identificar duas questões próprias e imperativas para todo esse grupo, Reitter identifica o problema do segundo posicionamento dos analistas: ao não levar em consideração as violências e as demandas do discurso hegemônico a respeito desse grupo, o analista pode estar fortalecendo o poder que ele tem sobre um sujeito. Afinal, tomando por imaginário algo que não é, um analista pode intervir de maneira que dificulte ainda mais a possibilidade de subversão desse lugar marginalizado e pejorativo ao qual alguém se vê sujeitado pelo discurso hegemônico heteronormativo. Por exemplo, ao tomar por imaginária uma sensação de perseguição que não o é, que na verdade é fruto  de situações que acontecem com frequência no dia a dia de homossexuais não só no espaço público como no âmbito familiar, especialmente no caso de jovens que moram com os pais, e que começam a se dar desde a infância, um analista pode estar desautorizando seu analisante a questionar, criticar e encontrar novas formas de se posicionar em relação a essa narrativa que o faz sofrer.

Em seu livro, Reitter limita a discussão à questão da homossexualidade, mas penso que seu raciocínio é válido para todas as minorias de representação como, por exemplo, a população negra no Brasil, transexuais, bissexuais e mulheres. É preciso que um analista esteja implicado em tais questões, que tenha um posicionamento crítico em relação a elas, caso contrário até mesmo em sua omissão estará se posicionando de maneira pró-hegemônica e não poderá ajudar analisantes que cheguem ao consultório padecendo pelo sofrimento que o discurso heteronormativo causa em suas vidas. 

Em suma, a partir da reflexão de Reitter, proponho que psicanalistas que topam trabalhar com analisantes marcados por sofrimentos advindos de discursos racistas, machistas e homofóbicos, tem que ter necessariamente uma posição anti-racista, anti-homofobia e feminista, caso contrário podem mais adoecer do que curar.


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